Entrevista com CARLA BARROS – TEATRO II

COMTINUAÇAO

4 – E de que forma tem se dado efetivamente essa movimentação? Ainda, como você vê que essa movimentação seria possível em nível nacional? Lembro de ter assistido uma entrevista do ator Sérgio Mamberti na Rede Cultura certa vez, onde ele disse – não literalmente, é mais ou menos isso – que o cinema nacional só retomou seu rumo porque todas as partes dentro do cinema viram que tinham de ser organizar… há como se fazer isso no teatro? Colocar todas as peças envolvidas para se organizarem de forma efetiva para um maior crescimento qualitativo da Arte como um todo?

Ainda tenho a esperança de sonhar que sim. É possível uma mobilização. Quando vemos grupos sendo formados nas mais variadas cidades brasileiras, fazendo pesquisa, estudando e colocando um sentido social em seus espetáculos, percebe-se que é possível sim. Só necessitamos que a classe artística deixe um pouco de lado pequenos “pré-conceitos” ou grandes egos, para que juntos possamos soltar o freio
da produção teatral nacional. Assim como está sendo feito com o cinema nacional. Foi justamente isso que ocorreu. Grandes nomes, grandes idéias, artístas desconhecidos. Resultado: Grandes e maravilhosas produções.
Temos que lembrar dos Saltimbancos. “Quando todos somos um”.

5 – Indo agora ao espetáculo que sua companhia está produzindo,e que recentemente participou do IV Festival Nacional de Teatro de Rio das Ostras,”Áridas Flores”..o que pode dizer a respeito em relação ao aprendizado de cada um dos envolvidos, na pesquisa realizada, na forma de trabalhar,enfim…em que “Áridas..”pode contribuir para a pesquisa teatral nesse longo caminho de montagens,ensaios…?

A minha montagem de Áridas Flores nasceu em 2006. Mas em 2001 o texto foi concebido e apresentado na capital mineira. Por ser um texto em linguagem poética, intenso e marcante sempre tive a vontade de poder colocar o meu olhar sobre ele. Foi então que em 2006, uma grande amiga me impulsionou e tive coragem de iniciar o processo. Digo coragem, pois cheguei em Brasília no ano de 2003 e até então não havia conseguido montar um grupo. Mas sei que as coisas acontecem quando devem acontecer. E isso é real. Bem, peguei o texto, acrescentei algumas cenas que haviam ficado de fora, pedi novos poemas ao autor e consegui reunir esse grupo maravilhoso que tenho até hoje.
Grupo maravilhoso pois temos a base mais importante para quem trabalha com arte. Nos dedicamos, somos honestos e respeitamos uns aos outros. É como se fossemos uma família. Unida. Nosso processo começou com vários exercícios que possibilitaram um mergulho profundo no texto e nas emoções variadas dos personagens. Até porque como não fazer isso se o elenco, na grande maioria, é muito jovem. Como falar das angústias do amor, da solidão, do abandono, da morte, do desespero, da esperança e do próprio amor em sua plenitude se não se viveu. Batalhamos muito. suamos a camisa para encontrar metáforas para aquilo que não foi vivido. Hoje, com dois anos de amadurecimento, o espetáculo tem uma força maior. Ele é mais profundo. Os personagens se dividem e se aglutinam como se fossem ondas do mar. Estudamos muito sobre ação física, tanto de Stanislavski, quanto de Grotowisk. Passamos pelo teatro físico no que tange as formas compreensíveis ao imaginário coletivo e, claro, a Peter Brook, quando afirma que “O caminho mais simples é sempre o mais difícil de achar” ou “Nosso principal trabalho, dia após dia, consistia em lutar com as palavras e seus significados. O significado também emerge do texto levemente, por tentativa e erro. Um texto só ganha vida através de detalhes, e os detalhes são frutos da compreensão”.
As palavras de Brook refletem exatamente o que eu idealizava, como diretora. Algo simples, que por ser simples é algo difícilimo de ser alcançado. E essa luta entre palavra e significado. Isso é o processo teatral.
Mas inda faltava algo … e consegui realizar mais esse desejo em Rio das Ostras. No mesmo dia em que iríamos nos apresentar, pela manhã, nós ensaiamos de frente para o mar. Ora … se Áridas fala de mar, de flor, de sentimentos, das emoções humanas, por que não tentar convencer aquele mar que estava ali, na nossa frente. Admito que foi uma loucura ensaiar assim no mesmo dia do festival. Mas valeu a pena. Os personagens cresceram de uma forma ímpar. Posso dizer que fomos abençoados por aquele mar, tão grande mas ao mesmo tempo, tão acolhedor.

6 – Vocês já tiveram uma boa repercussão a respeito de “Áridas Flores” agora em Rio das Ostras, foram selecionados para participarem do Festival de Teatro de Curitiba em 2007… tudo isso com apenas 2 anos de grupo… o que mais pode se esperar da Hélade daqui pra frente? Há outros projetos já prontos para serem iniciados?

Sim, claro. Sempre produzindo. Estamos com dois espetáculos no forno. Um dedicado as crianças. Rumpelstilskin. Uma adaptação minha do conto dos Irmãos Grimm, que irá enfocar principalmente a sociabilização da criança e a necessidade de se dar mais atenção a elas, nesse mundo louco em que vivemos hoje.
Já o outro espetáculo, que deve estreiar ainda esse ano, é uma homenagem a Cora Coralina. Com “Cora: Catadora de Sonhos”, resolvi colocar cenicamente toda a vida dessa mulher guerreira e maravilhosa. Também com uma adaptação minha, montei o texto apenas com as próprias palavras da poetisa, sem acrescentar uma vírgula sequer, mas entrecortando sua poesia poude montar o quebra-cabeça de sua vida.
E tenho a agradecer a filha de Cora, Vicência Brêtas Tahan, que nos possibilitou tirar o sonho do papel, nos dando a autorização para a montagem do espetáculo. Além disso, a Hélade hoje conta com uma sede e com o curso regular de teatro, onde posso demonstrar um pouquinho da nossa filosofia de trabalho.

Uma resposta to “Entrevista com CARLA BARROS – TEATRO II”

  1. Renato Mello Says:

    Informando novamente: esta entrevista conclui no link : https://bettyboop08.wordpress.com/entrevista-com-carla-barros-da-helade-companhia-de-teatrodf/entravista-com-carla-barros-teatro-ii/entrevista-com-carla-barros-teatro/ ou à direita do blog, em “Páginas”, escrito como “Entrevista com Carla Barros – Teatro III”

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