Entrevista com Carla Barros – Teatro III

7 – Tornando a “Áridas…” o tema da peça é solidão, certo? Gostaria de saber de que forma esse tema é trabalhado em sua montagem, e como os atores sentiram o impacto do tema quando da construção da peça… é um tema forte e que pode despertar as mais diversas reações… como foi organizar um trabalho tendo este tema/sentimento como base?

Vai além da solidão. É uma simbiose das emoções humanas. Costumo dizer que Áridas é uma singela homenagem a mulher. Mas que mulher é essa que sofre, ri, se emociona, perde e ganha? Somos todas nós. Nascemos todos de mulheres, somos criados por elas e o que lhes afeta, afeta a todos. E por isso, Áridas é uma homenagem ao ser humano. Aos sentimentos contraditórios inerentes a nós que como teias se fundem construindo nossas emoções.
Como disse anteriormente, nossa base de trabalho foi sempre dentro de exercícios que trouxessem metáforas. Algo que buscávamos para inserir toda e qualquer emoção no palco de uma forma cênica. A trilha sonora muito me auxiliou pois ela fez o contraponto do texto em linguagem poética. Nós utilizamos apenas o roc progressivo dos anos 70, na voz do grupo Genesis. É uma música quase sinfônica, de alta qualidade – pelo menos a do Gênesis – com variações rítmicas, melódicas, que não se vê mais hoje em dia. É uma música com várias nuances, como é a alma humana.
Tem passagens mais românticas, outras mais densas, algumas que se parecem com uma trilha de terror.
Durante os ensaios tivemos todos os tipos de reações possíveis por parte do elenco. Afinal, estava mexendo com coisas muito fortes. Com sentimentos que eles mesmo tinham. Enfim, em alguns exercícios houve uma interação de ator-personagem que chegava a impossibilitar o andamento do ensaio. Em outros momentos, havia um distanciamento quase brechtiano. Mas o mais importante é o que afirmo sempre como diretora, o ator deve sempre estar concentrado, focado em suas ações. Mesmo que seja em algum exercício, a princípio, banal. Quando há a concentração plena, tudo se transforma em base de trabalho. Novas formas de pensar, de agir e, assim, novas formas de se expressar. E eu tenho muito a agradecer ao meu grupo pela paciência e dedicação, pois sem isso, faríamos uma peça rasa, sem o peso necessário para alcançar o tom desejado.
Áridas tem como cor predominante o lilás. E você me pergunta … por quê? O lilás aparece em várias culturas associado ao onírico, a morte, aos sonhos, a esperança e ao psicológico. Nosso figurino e iluminação trilham exatamente esses caminhos. Tudo está associado ao texto. São pontos de referência que utilizamos para uma melhor compreensão. Mas quando falo de compreensão, quero dizer algo que vem do inconsciente. Sim, porque eu trabalhei justamente essa conexão palco-platéia ligada ao incosciente. Tentei deixar de lado um pouco o racional, por si só. Queria algo vindo “de dentro”. tanto para nós, atores, quanto para o público.
O que nos leva a outra questão cênica …. por que Áridas não tem cenário?
No início teriam jasmim e terra espalhados pelo palco. Mas daí veio a pergunta … por quê?
Eu queria mais do que um cenário “físico”, queria um cenário que extrapolasse todos os sentidos. Queria que o público enxergasse o seu mar, suas flores, sua lua. E não somente as nossas visões sobre isso.Pois cada um tem uma forma de pensar sobre cada coisa de que falamos. E mais, cada pessoa tem várias idealizações sobre isso, pois os sentimentos mudam diariamente e com eles, a percepção dos elementos.
Por exemplo, quando uma pessoa está tranqüila, serena, é bem provável que idealize um mar calmo, com pequenas ondas, uma areia branquinha, uma brisa suave e um sol ameno. Mas se essa mesma pessoa acorda com algo que a aflija, vai ver uma mar bravio, com ondas enormes, ventos fortes levando o cabelo e nuvens carregada no céu.
Para que toda essa vontade desse certo, tive a sorte de contar com o Rafael Andrade, que soube entender exatamente o que eu queria em cada cena e, assim, dar o contorno de iluminação necessário para cada sentimento predominante.
Mas para finalizar nosso cenário é imprescindível que nos doemos de corpo e alma, que quando a gente olhe para algum ponto, esse ponto imaginário se torne real. Nós temos que transformar as palavras em movimentos, tons, ações, realidade, enfim, em algo concreto aos olhos do público. Se conseguirmos isso, temos um cenário belíssimo.

8 – Você considera que o teatro que se propõe a fazer – bem como sua Companhia – tem um cunho social e/ou político? E considera isso importante no teatro de hoje ainda… ou crê, como alguns dizem “ser uma filosofia ultrapassada”, que “teatro e política não têm mais sentido juntos nos dias de hoje…” ?

Teatro é como a vida. Se você puder me mostrar alguém que não tenha nada ligado a política ou algo social, aí sim eu poderia dizer que não tem relação alguma. Mas mesmo as pessoas apolíticas, estão se colocando de um lado da balança. Da mesma forma, o lado social. Como viver em sociedade sem se preocupar com quem está ao seu lado? Não. O teatro que luto para mostrar é aquele que mais do que tudo fala de gente. Gente de todas as crenças. Como diz Raul Seixas, “Gente nasceu para querer”. E o que mais desejamos com a arte? A união do querer com o fazer. Assim, o meu teatro preza o ser humano nas inúmeras formas de pensar. Sempre.

Para finalizar, a definição de Carla Barros sobre seu espetáculo:
“Enfim, Áridas é um espetáculo em movimento. Movimento de tempo, de emoções e de amadurecimento, que não se esgota. A cada ensaio novas visões são motivadoras de novas ações, sejam elas físicas ou vocais.
Áridas é a reunião de ensinamentos básicos para qualquer ator, mas que só se concretizam quando há unicidade no grupo como um todo.
Áridas só acontece quando há interação, concentração, respeito e vontade. Garra e trabalho. Árduo.
Áridas é como se fosse um fio de vida de cada um de nós, que quando juntamos as pontas, ela renasce e floresce.”
Carla Barros

http://heladeciadeteatro.blogspot.com
e-mail: heladecompanhiadeteatro@gmail.com
Fone: (61) 3577-1110
Endereço: SCHN 207, bloco B, sala 32 – Asa Norte – Brasília/

entrevista cedida gentilmente ao colaborador /ator RENATO MELLO

3 Respostas to “Entrevista com Carla Barros – Teatro III”

  1. Thatiana Fernandes Says:

    Venho aqui aplaudir essa entrevista e, é claro, a entrevistada. Excelente! Um trabalho sério, sincero e apaixonado. Muito bom.
    E mais, como uma das integrantes da comissão organizadora do Festival Nacional de Teatro de Rio das Ostras 2008, faço questão de deixar meu comentário parabenizando, primeiramente, a Cia. Hélade pela coragem e determinação de encarar um Festival Nacional, mesmo que ainda recente, de extrema importância na cidade. E, em seguida, o ator Renato Mello pela iniciativa e pela oportunidade oferecida às Cias. que ainda estão engatinhando – mas com um futuro brilhante pela frente, como a Hélade Cia. de Teatro – de falar um pouco sobre o seu trabalho. Parabéns, mais uma vez pela entrevista. Muito bem mediada.

  2. Renato Mello Says:

    Agradeço de coração, Thatiana, mas como já disse em post anterior, os créditos da entrevista poder existir e ser publicada neste blog devem ser dados à Mônica de Oliveira, dona do Blog. O blog já existe há um bom tempo, e eu só comecei aqui agora, é apenas minha segunda participação… isso, graças ao fato de a Mônica ser uma pessoa que se interessa pela ARTE , e ter a cabeça aberta para se debater sobre ela.
    Nem todo mundo acha “interessante” – ainda mais nos dias de hoje, infelizmente , como pergunto na própria entrevista – se falar de teatro com responsabilidade social, com conteúdo, etc. … para uma grande maioria das pessoas do próprio meio, isso é só uma “encheção de saco” e “perda de tempo”, pois nos acostumamos com o besteirol jogado às nossas goelas. Por isso mesmo valorizo mais ainda o fato de a Mônica ter topado publicar a entrevista; isso demonstra uma preocupação genuína em, ao ter um espaço onde tantas pessoas debatem sobre tantos assuntos relacionados à ARTE, fazer isso com conteúdos que realmente nos levem à questões relevantes. Diga-se de passagem, estes conteúdos quem nos dará , como no caso de Carla Barros, é o entrevistado.
    No que tange a mim, como mediador, agradeço mais uma vez o elogio… bem como agradeço à Mônica pela chance aqui no blog, torcendo para que continuemos a parceria por um bom tempo.
    Grande abraço, e abraços a todos os outros visitantes do blog.
    Continuem participando e comentando.
    Renato Mello.

  3. bettyboop08 Says:

    FICO FELIZ QUE A MOTIVACAO QUE TIVE EM FAZER ESTE BLOG ESTEJA NO SEU CURSO NATURAL
    A DIVULGAÇAO DE BONS TRABALHOS E PROFISSIONAIS SERIOS DEVEM TER SEU ESPAÇO GARANTIDO
    E RENATO MELLO ,CARLA BARROS SAO EXEMPLOS !

    E COMO DISSE RENATO PARTICIPEM,COMENTEM TIREM DUVIDAS
    A MUITO POR FAZER
    ISSO E SO UM COMEÇO
    BJUS NO CORAÇÃO!

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